O CONCEITO SER (ORGANIZAÇÕES CONSCIENTES)

O Pensamento Biológico nas Organizações Incrementando a Produtividade, a Sustentabilidade e a Qualidade de Vida

            A Administração Natural - Como  resolver  problemas  humanos trabalhando dentro de  máquinas?

 Nesta virada de milênio, estamos presenciando um ritmo de mudanças em nível de abrangência jamais experimentado pela humanidade. Sejam políticas, sociais, econômicas ou tecnológicas, tais mudanças estão nos conduzindo a uma outra era, que anseia por novos paradigmas, objetivando o aprimoramento da espécie humana através do autoconhecimento e do questionamento do seu papel no planeta.              

A globalização da economia, que vem derrubando e enrijecendo barreiras alfandegárias, estabelece novos padrões de competitividade para as empresas, determinando como principais diferenciais, o conhecimento e a competência na sua aplicação.        

É dentro deste cenário conturbado, que uma variedade de tecnologias gerenciais vão sendo criadas e implantadas nas empresas, conduzindo sucessos e fracassos, sendo estes, causados muitas vezes por falta de uma visão sistêmica que englobe a administração estratégica, a administração de recursos humanos e essas tecnologias.

Para a devida articulação destas iniciativas, faz-se imperativo a percepção da vida organizacional através de uma administração natural, e é sobre isto que iremos conversar.

            Além das teorias do Caos, da Complexidade, da Cibernética e da Autopoiese.

Mais recentemente, tem saído no País e no exterior, algumas publicações que enfocam as organizações como seres vivos, tendo como premissas, teorias sobre psicologia, misticismo, ecologia, biologia, cibernética ou caos e complexidade. Em alguns casos, é interessante percebermos a proposta de abordagem mecânica sobre a vida.

Porém, o processo de produção de conhecimento, nunca se dá independentemente do repertório do observador. Existirá, sempre, uma realidade verdadeira e outra observada que vai se aproximando da primeira, conforme o "olhar" do observador e a praticidade do modelo teórico, expliquem de forma mutuamente coerente, a repetibilidade ou não do fenômeno que está sendo evidenciado.

Nossa história com o Pensamento Biológico nas Organizações, teve início no final da década de 80, quando buscávamos descobrir, dentro de uma empresa multinacional, uma melhor forma de gerenciamento de projetos que fosse mais eficiente e eficaz. Então, atentamos para o gerenciamento de alguns fatores fundamentais, ainda sem muita consciência da profundidade dos mesmos, do que tínhamos descoberto como comportamento da natureza. Tal abordagem, permitiu uma melhor compreensão da vida e do desempenho dos projetos.

No início da década de 90, o grande discurso no País era o da Qualidade, apontando o cliente como o agente mais importante para as empresas, e nós já tínhamos a convicção de que não era. Haveria a necessidade de se reconhecer a real situação da empresa, frente a todos os agentes co-responsáveis pela longevidade da mesma (convivíamos com esta realidade em nossa empresa).

Nos EUA já havia o movimento da Reengenharia, que em essência apenas reforçava parte da teoria da Qualidade e o resgate do conceito de  Organizações de Aprendizagem. Na Europa, a preocupação era a ISO 9000.

Daí, procuramos compreender quais eram as principais dificuldades encontradas na adoção de modelos de gestão, que incluiu projeto de pesquisa envolvendo instituições e empresas nacionais e internacionais. O resultado apontava para fatores humanos, o que provocou a questão primordial: como resolver problemas humanos trabalhando dentro de máquinas?

Uma grande parte das descrições de empresas, inclusive organogramas que lembravam circuitos elétricos, apareciam como "engrenagens engatadas". Lembravam espremedores de laranja. Boa parcela das organizações ainda são geridas desta maneira e, por sua vez, parte das escolas promovem a formação de "laranjas"!

Na busca de uma resposta, tivemos que desenvolver uma pesquisa transdisciplinar que englobou as ciências humanas (antropologia, as diversas correntes da psicologia...), naturais (física, química, biologia, ecologia, cosmologia...), sociais (sociologia, política, economia...) e exatas (teorias do Caos, da Complexidade, da Cibernética, dos Fractais...), bem como, a filosofia , as artes e as tradições religiosas do oriente e do ocidente. Foi, e tem sido, todo este período, uma conversa com a própria natureza!

Perguntávamos para as suas diversas formas de expressão (pois neste momento somos a natureza falando sobre ela mesma, embora a maioria das pessoas não tenham consciência disso), O QUE É A VIDA?

Ficamos boquiabertos ao nos depararmos com o surgimento em nossas consciências de padrões que se repetiam, transfigurados em linguagens distintas a depender do campo do conhecimento que estava sendo investigado. Mesmo sem estar fazendo qualquer questionamento, ao estudarmos qualquer assunto, ou lendo ou assistindo a um filme por lazer, ou simplesmente vivendo situações em contextos diferentes, estes padrões iam se revelando. É como se utilizássemos uns óculos especiais, com o qual pudéssemos enxergar forças "invisíveis", que explicavam as causas dos conflitos entre nações, organizações e indivíduos.

Este enfoque organizacional tem sido estudado, publicado e aplicado pelas principais instituições em gestão do País e apresentado em eventos nacionais e internacionais. Quanto as aplicações, envolveram iniciativas diversas com organizações públicas e privadas, de tamanho e setores variados, também com o intuito de reforçar processos de gestão já em andamento.

            Uma Reveladora "Coincidência"

            No início de tudo havia o Caos... Veio Deus e criou o Cosmos. Uma “infinita” imensidão, onde todo o nosso sistema solar eqüivale a um grão de areia, considerando-se todas as praias do planeta. Dentro deste grande organismo, encontramos a Terra, composta por minerais, vegetais e animais. Como nos consideramos o ápice dentre os últimos, nos organizamos em funções políticas, sociais e econômicas.

            Penetrando na política, a dividimos em três poderes: o legislativo, o judiciário e o executivo.

            Nascemos em famílias, células mater da sociedade, compostas pelos papéis de pai, mãe e filho. Logo somos inseridos em uma religião, que sempre terá um Pai, um Filho e um Espírito Santo com um Deus onipotente, onisciente e onipresente.

            Vamos crescendo... Conhecendo nossas potencialidades, então somos educados em instituições que desempenham atividades de pesquisa, ensino e extensão.

            Chegamos ao mercado de trabalho... Somos contratados para desempenhar funções ou estratégicas, ou táticas, ou operacionais.

            Por que será que dividimos nosso corpo em cabeça, tronco e membros?! Será que é por que temos aspectos emocionais, racionais e físicos? Ou... corpo, mente e alma, como dizem as tradições?

            Talvez a ciência da psiquiatria tenha a resposta desvendando nosso id, superego e ego.

            “Mergulhando” nas intimidades da vida, chegamos até as nossas células, com seus núcleos, citoplasmas e membranas plasmáticas, onde a vanguarda da biologia compreende a vida como tendo um padrão autopoiético (que se cria e recria continuamente), processo (cognição) e estrutura (forma)... Esmiuçando um pouco mais, percebemos os átomos com seus núcleos, eletrosferas e ligações atômicas, compostos por "pedacinhos de energia", que possuem sua própria natureza e uma “aparição” ora como onda, ora como partícula.

            É muito interessante observarmos pelas teorias do caos e da complexidade, que a natureza promove a diversidade, conectividade e novas organizações emergentes, na direção de um caos , não tão caótico assim, que contém atratores estranhos, periódicos e puntiformes. A cibernética nos propõe uma direção ou sentido, uma avaliação e uma correção de rota.

            Creio que estes exemplos já estejam de “bom tamanho”, pois na realidade, com o objetivo de desvendarmos a natureza, eu e você passaríamos o restante das nossas vidas percebendo três dimensões em tudo e em todos que envolvem os nossos passado, presente e futuro...

            Os Padrões  Dimensionais da Natureza                                                

           Considerando uma gama enorme de  "coincidências", foram "descobertos" o real significado daquelas três dimensões, o que estavam por nos dizer...Observando atentamente aos seus significados, nos deparamos com o Conceito SER. Acessamos uma lei geral, presente na forma com que a natureza se expressa e se desvenda para nós, daí a razão de compreendê-lo como uma descoberta.

Este conceito identifica três dimensões interdependentes, fechadas em um ciclo autocriador, essencialmente presentes em qualquer sistema vivo: Sensibilização (querer, dever, orientar, especificar, caracterizar, perceber...); Educação (saber, refletir, julgar, ponderar, responder, avaliar, planejar...); e Realização (fazer, operar, concretizar, acontecer, atuar, acionar...). Ver figura 1.


Figura 1 – As Dimensões da Vida e suas formas de representação

A natureza em seu caminhar evolutivo, conforme comentamos anteriormente, vai promovendo a diversidade, a conectividade entre as diversidades, surgindo então, novas estruturas de organização, novos organismos. Diferentes partículas subatômicas se agregam para formar átomos, estes por sua vez unem-se em moléculas, que formam macromoléculas, que dão origem às células simples, daí às células complexas, tecidos , órgãos, sistemas, indivíduos, comunidades e conglomerados de comunidades.

Não é nosso objetivo aqui, detalharmos este desenrolar, mas é muito interessante nos depararmos com a seguinte questão: como pode a vida surgir a não ser da vida?...

Encontramos estas três dimensões desde o micro ao macrocosmos, onde organismos menores vão compondo organismos maiores, de nível complexidade superior.

Um organismo está sempre incluso em outro maior, seu meio ambiente, em processo de co-evolução cuja direção nos é dada pela dimensão da Sensibilização. Na teoria do Caos, tal dimensão seria conhecida como os já mencionados "atratores caóticos". Em função da variação do fluxo de energia em seu meio, um organismo se depara com um ponto crítico conhecido como "ponto de bifurcação", quando o mesmo se adequa, fazendo com que surjam as "propriedades emergentes", que caracterizam uma nova ordem. Quando isto não ocorre, o mesmo sucumbe, se deteriora não conseguindo dar uma resposta aos desafios impostos pelo seu ambiente.

Trata-se de um sistema fractal, ou holográfico, configurando o que denominamos “biograma”, o organograma da vida. Ver Figura 2.


Figura 2 – Organograma da Vida (Biograma)

            O Pensamento Biológico nas Organizações (Bio-Sistema Organizacional)

            Detalhando cada uma das dimensões para uma organização, o Conceito SER assume a configuração descrita na Figura 3.


 

Figura 3 – O Conceito SER nas Organizações

Dimensão da Sensibilização - estabelece os motivos para o convívio organizacional

- Visão: Obtida através de uma viagem ao futuro cujo veículo é a imaginação, permite a vivência do senso de missão da empresa, a sua razão de existir e servir a sociedade.

- Valores: São os referenciais de conduta da organização e seus integrantes. Os valores caracterizam as diferenças entre uma organização humanizada, animalizada ou “coisificada”.

As estratégias que norteiam o caminhar da organização, encontram-se nesta dimensão.

Dimensão da Educação - desenvolve competências e sabedoria.

- Conhecimento sobre Pessoas: Para um trabalho mais consciente e com sentido de realização é necessário desenvolver com os membros da empresa o autoconhecimento quanto à expectativas, competências, características pessoais positivas e negativas, além do conhecimento das demais pessoas que convivem em seu meio.

- Conhecimento sobre Administração / Gerenciamento:  A competência em articular esforços e recursos para se concretizar o ideal da organização é essencial para sua saúde física, mental e financeira.

- Conhecimento sobre Tecnologias: A elaboração e domínio da tecnologia utilizada é fundamental para disponibilizar produtos e serviços de alto padrão à sociedade, além da compreensão das relações de causa e efeito do processo produtivo quanto ao seu desempenho e conseqüências ambientais.

- Conhecimento sobre Holismo: O termo vem do grego “holos”, que significa todo,  inteiro. Tal conhecimento é de suma importância para a percepção da integralidade do mundo e dos seres, permitindo uma vida mais plena e  menos fragmentada.                                                                                           

Dimensão da Realização - promove a ação organizada.

- Símbolos:  Estes, podendo ser cognitivos ou físicos, refletem a estrutura de poder e os valores praticados pela empresa, independentemente do que está declarado em suas políticas de conduta. A sua não observância provoca resistência nas organizações em processo de transformação cultural, evidenciando  as incoerências entre o discurso e a ação.

- Organização / Estrutura: A estrutura organizacional da empresa é o esqueleto que sustenta uma grande rede de serviços, promovendo ofertas e demandas de competências e recursos para o seu “metabolismo”.

- Sistemas: Os sistemas organizacionais são os diversos órgãos responsáveis por concretizar a finalidade da empresa e permitir uma relação adequada com os agentes responsáveis pela sua vitalidade, que são os seus meios ambiente interno e externo (sociedade, governo, clientes, não clientes, inventores, centros de pesquisa, investidores, atuais, futuros e ex- integrantes, parceiros, concorrentes e planeta).  Os principais sistemas são: desenvolvimento humano; marketing; desenvolvimento de produto e serviços; produção; informação; meio ambiente; financeiro; e desenvolvimento social.

            De maneira resumida, podemos considerar o tipo de pensamento característico dos principais movimentos da Administração, nas décadas de 80 e 90, conforme a Tabela A.

Movimento da Administração

 

Dimensão Preferencial

 

 Pensamento Associado

 Qualidade

 

Realização

Verticaliza o detalhamento dos processos de setores específicos da organização. Embora promovesse o intercâmbio de processos entre setores, o que vingou foi o pensamento vertical.

 Reengenharia

 

Realização

Desenvolve o pensamento horizontal, procurando vencer as barreiras entre os diferentes setores de uma mesma organização.

Organizações de Aprendizagem

Educação

Estabelece o conceito de “pensamento sistêmico”, definindo arquétipos de relações entre comportamentos conflitantes.

 Organizações Visionárias

 

 Sensibilização e Realização

Inspirado no I Ching (Livro das Mutações, da cultura chinesa), propõe para as organizações atividades de natureza yin (conservadoras) e yang (expansionistas). Trata-se de um “pensamento bidimensional”.

 Organizações Conscientes

 

Sensibilização, Educação e Realização

Conhece os princípios da natureza e desenvolve o “pensamento biológico” (tridimensional-interativo), a fim de harmonizar imaginação, sentimento, conhecimento, sabedoria e comportamento ao meio organizacional.

Tabela A – Características do Pensamento da Administração Moderna

            Torna-se evidente a evolução nas formas de pensamento, na busca de uma melhor compreensão da natureza e sua influência nas organizações. Vamos conviver com organizações mais maduras, mais conscientes de suas responsabilidades e mais críticas com relação a utilização de novas tecnologias de processo e de gestão. Poderíamos dizer que vamos vivenciar a moda das tecnologias de administração à prova de modismos.

            Tipos de Pessoas e Organizações, Quanto a Plenitude das Dimensões

            Relacionando o indivíduo às três dimensões do Conceito SER, encontramos a seguinte classificação:                                                                  

O Ser Apoiador (Falta da Sensibilização): Competente, porém, não tem meta na vida. E quando não temos meta de vida, com certeza estamos na meta de alguém! Não há problema algum em compartilharmos uma meta, deste que isto se dê de forma consciente, quando  a assumimos como nossa também.

O Ser Aleatório (Falta da Educação): Caracteriza-se por querer fazer algo e tentar realizá-lo, porém, sem saber como. É um processo de aprendizado por tentativa e erro.    

O Ser Sonhador (Falta da Realização): Muito criativo com relação à idéias, tem visões espetaculares, é intelectualmente bem preparado, mas não realiza ou faz acontecer suas projeções.

O Ser Dúbio (Duplicidade de uma ou mais dimensões): Apresenta duplicidade ou mais desdobramentos nas dimensões, provocando paralisia ou lentidão do organismo. É muito comum em processos de privatização e associação de empresas.

O Ser Fragmentado (Falta articulação entre as dimensões): Tem uma imagem para si no futuro, porém, adquire competências  não coerentes com seus objetivos e faz outra coisa completamente diferente. Podemos ter alguns momentos assim em nossa vida (ex.: adolescência), o problema é vivermos desta maneira.

O Ser Pleno: Possui um equilíbrio harmonioso entre as três dimensões. São mais raros na  natureza enquanto indivíduos, porém o encontramos em um grupo, que atuando de forma uníssona, aproveita o potencial de todos os seus membros.

            Querer, Saber, Fazer... e o Dever e o Poder?         

Bem, comumente escutamos algumas frases feitas que assumimos como verdades, tais como: “Querer é Poder” ou “Informação é Poder”. Observando a realidade, diríamos que querer e saber são partes do poder.

Aparentemente, poder querer e poder saber também são verdades. Então, o que seria o poder de fato?...

Consciência! Esta se obtém a partir do discernimento e da ação. Temos que desenvolver uma percepção clara de mundo, das pessoas, de nós mesmos e da nossa missão. Daí definimos uma estratégia de como se comunicar e agir dentro da realidade. Para aferir se estamos no caminho certo é só verificar nossa colheita.                   

Se não gostamos do que estamos colhendo, devemos verificar o que estamos plantando! O problema pode estar na semente (a meta), no solo (o ambiente), no tempo (a oportunidade) ou no agricultor (a vocação). Assim cultivamos a consciência! Nesta caminhada vamos transformando o “querer” em senso de “dever”.

            Funcionário? Empregado? Colaborador? Sócio?... O que ser? Eis a questão!

             Vamos refletir um pouquinho sobre a denominação mais adequada para nós “mortais” e nossa relação com nossas organizações.

            Por que se investe tanto em motivação ? No fundo... no fundo, é para fazermos algo que não faríamos naturalmente! Se fosse natural, simplesmente o faríamos da melhor forma possível. E na realidade, este esforço também se perde com o tempo, porque ninguém, de fato, motiva ninguém  a fazer algo de maneira prazerosa, que não esteja de acordo com a natureza do indivíduo.

           Todas estas preocupações das organizações são para criar nas pessoas um sentimento de pertencer a um empreendimento, pertencer a um organismo, que tem a finalidade de fazer algo grandioso, que um indivíduo não conseguiria fazer sozinho.

            Posto isso, com relação a denominação mais adequada aos componentes da organização, convivemos com uma série de nomenclaturas que trazem por trás de si, significados distintos, que procuram evidenciar níveis mais acurados de relacionamentos. Podemos correlacionar o termo “funcionário” à idéia de servidor público, o título de “empregado” à empresas mais autocráticas, assim como, “colaboradores” e “sócios” com empresas mais participativas. Mas, na realidade, o indivíduo que trabalha em uma organização é literalmente a organização, desempenhando uma função que é vital para ela.

           Imagine agora a empresa em que você trabalha, sem você e todos os seus colegas...Sobraram as instalações e os recursos materiais utilizados por ela. Falta o que na empresa? A resposta é...VIDA!

De madrugada, em um edifício sede de uma grande empresa, todos os andares encontram-se apagados. Vai amanhecendo o dia, sai o sol e já perto das oito horas o movimento torna-se intenso, as pessoas começam a interagir, elevadores “a mil” e os andares começam a se iluminar, a ganhar energia, a ganhar vida. Telefones tocam, papéis são preenchidos, outros são rasgados e jogados fora. Pessoas se encontram, trocam informações, percebem os fatos internos e externos e decidem o que fazer. Outras vão fazendo o que já estava decido, trazendo para o mundo concreto o que já existia no mundo das idéias, até que de repente todos param!...

Os telefones começam e continuam a tocar e ninguém atende. Na portaria da empresa surge uma fila de pessoas querendo entrar, são parceiros, clientes, fornecedores e outros que convivem com a organização, mas não conseguem entrar, não há quem os atenda. Sistemas de rede ficam piscando na frente das pessoas pedindo “input” que ninguém fornece.... Lá dentro, todos paralisados, parecem estátuas, com olhares determinados na intenção de fazer algo que de forma surpreendente tornaram-se impedidos.

Onde está a empresa?! Nos corações e mentes das pessoas. Neste momento ela existe em potencial. Todos sabem quais interações promover, porém não as realizam.

Agora, tão misteriosamente quanto a paralisação, sem perceber o que ocorrera, as pessoas recomeçam seus afazeres. Retornando a agir e interagir, eis a vida que ressurge, com toda a sua magnitude e mistério, deixando fluir a energia em suas formas variadas.

Então, já podemos voltar a questão básica de como denominarmos as pessoas que compõem a organização. Bem, pelo exposto na realidade somos “portadores” de organizações. A palavra “portador” significa: que leva ou traz consigo ou em si. Portamos muitas “coisas”, boas e ruins. Toda nossa história, todo o mundo que conhecemos está à reboque em nós, não importa onde estejamos. É muito comum estarmos em nossas casas,   conversando com nossas esposas, e de repente vem a pergunta: você não está me escutando, onde é que você está?... Muitas vezes estávamos na empresa mesmo!

Quando estudamos organizações e instituições que transcendem séculos, o que é passado de uma geração à outra? O que é um país? O que é uma religião? O que é uma sogra?... É uma idéia que tem vida própria! Assim como passamos informações genéticas às próximas gerações, passamos também idéias vivas, com sua natureza específica, referencial de valores e comportamentos associados. São verdadeiras “entidades” que portamos.

            O Organismo e o Seu Ambiente Externo

           Nenhum organismo evolui independentemente de seu ambiente, o próprio processo civilizatório é resultado de uma “conversa” entre as sociedades e seus ambientes. Os ambientes colocam os desafios, provocando as respostas das sociedades, visando a perpetuação das suas espécies e culturas.

            Com relação à uma organização e seu meio, encontramos forças ativas padrões, meta inteligências arquetípicas que representam expressões da natureza (“entidades”), que convivem em qualquer organismo, incluindo o homem e suas nações. Ver Tabela B. 

Entidade Arquetípica

 

Fluxo Energético

Estrutura de Nações

Atores Organizacionais Envolvidos

Rei

Identidade

Império

Senso de missão disseminado em seus portadores

Herói

Potestade

Ditadura

Conselhos, lideranças e assessorias

Religioso

Integridade

Fundamentalismo

Sociedade, governo, portadores e planeta

Inventor

Inventividade

Anarquismo

Inventores, portadores e centros de excelência

Artesão

Produtividade

Comunismo

Fornecedores, portadores, clientes e não clientes

Mestre

Potencialidade

Socialismo

Ex-portadores, portadores e futuros portadores

Empreendedor

Viabilidade

Neoliberalismo

Acionistas, portadores e concorrentes

            Tabela B – Arquétipos Organizacionais

                Torna-se fundamental para a longevidade do organismo, uma clara percepção das demandas do meio com o qual interage, o desenvolvimento do comportamento adequado às exigências deste meio e as “provocações” que o próprio organismo queira fazer nele. É bom relembrar, que o próprio meio também é um organismo que encontra-se em evolução.

Os principais conflitos que ocorrem, sejam na vida de um indivíduo de organizações ou de países, se dão entre os interesses distintos que caracterizam cada uma daquelas entidades. São processos subjacentes, que não ficam evidentes nas mesas de reuniões, nem em nossos conscientes se não tivermos um “olhar” já treinado para percebe-los. Podemos citar como exemplo, uma vez que não é objeto deste texto explorarmos todo o assunto, uma discussão sobre investir ou não em desenvolvimento humano; pelo olhar do religioso, não há nem necessidade de se discutir esta questão. Já pelo olhar do empreendedor, ele vai perguntar, de formas variadas: quanto é que nos vamos ganhar com isso?! Um indivíduo ao decidir passear com a família ou fechar um negócio, terá seu comportamento resultante, influenciado pelos mesmos arquétipos já mencionados.

Uma sociedade regida pelo arquétipo do guerreiro,  torna-se uma ditadura. Regida pelo empreendedor, temos uma sociedade neoliberal. Este é o conflito entre Cuba e E.U.A..

            A Liderança nas Organizações

            Talvez, uma das principais dificuldades de  pessoas não perceberem vida nas organizações, seja a falta da percepção da vida nelas mesmas.

            Ao investigarmos as razões dessa realidade, observamos que tradicionalmente os gerentes vieram sendo desenvolvidos sob duas orientações (tarefa e pessoas), definindo-se assim o seu estilo de liderar, conforme representação da Figura 4.


            Figura 4 - Estilos de Liderança

            Se o líder estava mais voltado para pessoas era tido como democrático. Seria considerado autocrático, caso desse mais importância as tarefas. O movimento da liderança situacional propôs a ação em função do momento. A depender deste, o gerente deveria ser mais autocrático ou mais democrático.        

Pois é, mais pernicioso que a ignorância, é a ignorância eficaz!

Acreditamos que as organizações são o principal meio que as pessoas dispõem para evoluir e se expressar, pois boa parte da nossa vida está no ambiente de trabalho.

Se observarmos como despendemos nosso tempo, vamos verificar que sobram apenas quatro horas por dia para realizarmos tudo que queremos na vida, a não ser trabalhar, dormir e cumprir com nossas demandas fisiológicas... E a família? E o lazer?... Pronto, lá se foi o resto da vida! Ah!... mas quando eu me aposentar....

Está bem, não vamos entrar nesta discussão. O importante é concebermos o nosso trabalho como a nossa expressão, o marco da nossa existência, o dever de servirmos a sociedade através do nosso talento. Os antigos o consideravam como “sacro-ofício” (trabalho sagrado) ao invés do atual enfoque de “sacrifício”.        

Ter consciência de algo que sabemos fazer bem e exercê-lo é o principal patrimônio de um indivíduo. Para termos este nível de consciência, não bastam os dois eixos considerados nas teorias de liderança (tarefa e pessoas), pois, no máximo, eles possibilitam apenas o desenvolvimento do ser apoiador.    

Com a pressão do mercado competitivo e a diminuição dos níveis das estruturas organizacionais, não há muitas alternativas para promoções, o que determina que as fontes de motivação no trabalho deverão ser cada vez mais intrínsecas (auto-motivação) do que extrínsecas (dependendo de fatores externos a pessoa).

Já começamos a perceber uma série de iniciativas das organizações em promover a busca do autoconhecimento e de uma melhor compreensão da realidade de seus integrantes, desde a introdução de técnicas de psicologia ao estudo da espiritualidade humana.  

A principal dificuldade da introdução desses conhecimentos é que exige imaginação, meditação, reflexão e autodisciplina. Porém, a grande maioria das pessoas não teve formação adequada para o exercício do discernimento e controle das suas ações. Os nossos sistemas de vida e educacional estão mais para deformar do que para formar seres plenos. Contudo, podemos conceber a tendência de uma “nova” teoria de liderança, representada pela Figura 5, que denominamos como o Perfil de Maturidade  Pessoal.

Há uma relação direta entre esta abordagem de perfil de liderança e a dimensão da Educação proposta pelo Conceito SER, no enfoque de "Organizações Conscientes". Uma liderança melhor desenvolvida nestas quatro orientações (conhecimento de mundo, conhecimento de si mesmo, conhecimento da tarefa, conhecimento das pessoas) seria a mais adequada para alavancar o processo consciencial nas organizações.

Chegamos a esta conclusão em meados da década de 90 e tivemos que criar uma universidade alternativa para trabalhar os seguintes temas:

A natureza, o homem e suas formas de expressão

As forças sociais, políticas, econômicas e suas tendências

Autoconhecimento e domínio dos pensamentos e das emoções

Saúde física e mental

Estratégias para a realização pessoal e profissional

Os fatores que afetam a vida das organizações

As mais recentes tecnologias da administração

A criação e o desenvolvimento de negócios

Ciência, tecnologia e comportamento

Biografias de sucesso

 A UNESCO, em 1997, refletindo sobre o conteúdo educacional para a formação de um cidadão para o século XXI, chegou a uma conclusão bastante similar aos 4 eixos, chamando-os de "Colunas".


 
            Figura 5 - Perfil de Maturidade

            Considerações Finais                                                                                      

            Sempre foi muito comum escutarmos em empresas declarações como as seguintes: “O homem é o nosso principal patrimônio!”; “Nossos recursos humanos são a nossa maior preocupação!”; “Para nós as pessoas são o mais importante, somos uma grande família!”.         

Apesar destas manifestações, as nossas vivências e observações evidenciam, de forma bastante comum, uma certa ignorância quanto à questão: o que é ser humano? As respostas que encontramos são bastante variadas mas, como são fornecidas por representantes da espécie, acreditamos que tenham uma parcela da verdade.

De qualquer forma, é fácil verificar a falta de habilidade que muitas empresas encontram ao lidar com o seu “principal patrimônio”. Basta atentarmos para as causas das dificuldades na implantação de programas gerenciais. A grande maioria dos problemas verificados estão relacionados com fatores humanos. Como resolver problemas humanos trabalhando dentro de máquinas? Esta é a questão fundamental colocada pelo Conceito SER.              

Espero que a divulgação deste trabalho possa contribuir com as empresas em processo de transformação cultural, na medida em que propõe uma reflexão sobre:

- A natureza humana e seu papel no planeta.

- A percepção de que para sobreviver e ou crescer não basta satisfazer clientes  e portadores, pois há empresas fechando com estas condições atendidas. Torna-se fundamental, então,  priorizar suas ações para o atendimento das relações mais críticas, considerando-se todos os agentes envolvidos com a vitalidade da organização.

- A necessidade  de um posicionamento crítico com relação as diversas correntes de pensamento, que são criadas pela sociedade e o meio científico, que influenciam comportamentos e a utilização de tecnologias de produção e gerenciais. Desta maneira, procura-se instituir um processo decisório lúcido, orientado para a realidade da organização.

- A importância da elaboração de um planejamento articulado e coerente das diversas iniciativas que promovem o ciclo fechado e autocriador, que une as dimensões de sensibilização, educação e realização, abrangendo as mesmas, os "olhares" de todos os arquétipos.

- Aprender a lidar com algumas regras da vida, como por exemplo: um organismo não dá um passo à diante sem consultar a sua história; esforços e resultados, não estão intrincados dentro de uma matemática linear, ou seja, um pequeno esforço pode gerar grandes resultados ou vice e versa; na vida a certeza não é garantida, podemos garantir apenas o que plantamos, a colheita, é uma outra história a ser contada; qualquer organismo está sempre inserido em outro maior dentro de um processo de co-evolução    e, sua inteligência, monitora a sua  adequação entre caos e ordem, e o surgimento das "propriedades emergentes".                                                                         

Finalmente, atuando em cada um destes itens, estaremos criando Organizações Conscientes, mais imaginativas, mais críticas, mais solidárias e realistas, enfim, mais sábias.

Em diversos exercícios que realizamos junto à executivos de empresas e estudantes universitários, no intuito de compreendermos qual a percepção  da era que estamos vivenciando, encontramos como respostas uma longa lista de enfoques alternativos tais como: informação; conhecimento; mulher; fundamentalismo; informática; intuição; capital humano; aquário; globalização; caos ... É claro que a percepção depende dos autores destes títulos e seus objetivos, mas aparentemente, a impressão é a de estarmos vivendo a “era das eras”.

Particularmente temos uma preferência: ERA DA CONSCIÊNCIA! Um mundo mais justo, com empresas produzindo produtos e serviços que realmente agreguem a humanidade, respeitando o grandioso organismo que nos recria constantemente: A TERRA!

Pense nisto, pois como cada cabeça é um mundo, podemos escolher em qual viver.   

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Nota:    Este pensamento, ao longo da década de 90, tem sido utilizado em projetos de diagnóstico organizacional, desenvolvimento organizacional e aperfeiçoamento e integração de tecnologias de administração utilizadas pelas organizações (Qualidade Total, Normas Gerenciais  ISO, Organizações de Aprendizagem, SA8000, Reengenharia, Planejamento Estratégico, Gestão de Projetos, Sistemas de Informações Gerenciais....). Vem sendo estudado, aplicado ou publicado pelas principais instituições de gestão do País e influenciando programas nacionais e internacionais de excelência.

Dentre as organizações onde o Conceito foi e vem sendo aplicado em projetos específicos, encontram-se empresas e instituições de setores distintos (siderurgia, telecomunicações, energia, ensino, consultoria, indústria automobilística). Ele também está sendo utilizado como referência conceitual no desenvolvimento metodológico para a avaliação das empresas de distribuição de energia elétrica do país.     

            Estas aplicações, tem sido apresentadas em eventos nacionais e internacionais. O artigo original é de 1994 e foi revisado em 1999 e 2001.

            Para o desenvolvimento deste modelo foi utilizada uma vasta bibliografia, caso o leitor tenha interesse em conhecer ou mesmo trocar informações sobre o artigo, nos colocamos à disposição através do e-mail rsoares@institutoorior.com.br