O
CONCEITO SER (ORGANIZAÇÕES CONSCIENTES)
O
Pensamento Biológico nas Organizações Incrementando a Produtividade, a
Sustentabilidade e a Qualidade de Vida
A Administração Natural - Como
resolver
problemas
humanos trabalhando dentro de
máquinas?
Nesta
virada de milênio, estamos presenciando um ritmo de mudanças em nível de
abrangência jamais experimentado pela humanidade. Sejam políticas, sociais,
econômicas ou tecnológicas, tais mudanças estão nos conduzindo a uma outra
era, que anseia por novos paradigmas, objetivando o aprimoramento da espécie
humana através do autoconhecimento e do questionamento do seu papel no planeta.
A
globalização da economia, que vem derrubando e enrijecendo barreiras
alfandegárias, estabelece novos padrões de competitividade para as empresas,
determinando como principais diferenciais, o conhecimento e a competência na
sua aplicação.
É
dentro deste cenário conturbado, que uma variedade de tecnologias gerenciais
vão sendo criadas e implantadas nas empresas, conduzindo sucessos e fracassos,
sendo estes, causados muitas vezes por falta de uma visão sistêmica que
englobe a administração estratégica, a administração de recursos humanos e
essas tecnologias.
Para a devida articulação destas iniciativas, faz-se imperativo a percepção da vida organizacional através de uma administração natural, e é sobre isto que iremos conversar.
Mais
recentemente, tem saído no País e no exterior, algumas publicações que
enfocam as organizações como seres vivos, tendo como premissas, teorias sobre
psicologia, misticismo, ecologia, biologia, cibernética ou caos e complexidade.
Em alguns casos, é interessante percebermos a proposta de abordagem mecânica
sobre a vida.
Porém,
o processo de produção de conhecimento, nunca se dá independentemente do
repertório do observador. Existirá, sempre, uma realidade verdadeira e outra
observada que vai se aproximando da primeira, conforme o "olhar" do
observador e a praticidade do modelo teórico, expliquem de forma mutuamente
coerente, a repetibilidade ou não do fenômeno que está sendo evidenciado.
Nossa
história com o Pensamento Biológico nas
Organizações, teve início no final da década de 80, quando buscávamos
descobrir, dentro de uma empresa multinacional, uma melhor forma de
gerenciamento de projetos que fosse mais eficiente e eficaz. Então, atentamos
para o gerenciamento de alguns fatores fundamentais, ainda sem muita
consciência da profundidade dos mesmos, do que tínhamos descoberto como
comportamento da natureza. Tal abordagem, permitiu uma melhor compreensão da
vida e do desempenho dos projetos.
No
início da década de 90, o grande discurso no País era o da Qualidade,
apontando o cliente como o agente mais importante para as empresas, e nós já
tínhamos a convicção de que não era. Haveria a necessidade de se reconhecer
a real situação da empresa, frente a todos os agentes co-responsáveis pela
longevidade da mesma (convivíamos com esta realidade em nossa empresa).
Nos
EUA já havia o movimento da Reengenharia, que em essência apenas reforçava
parte da teoria da Qualidade e o resgate do conceito de
Organizações de Aprendizagem. Na Europa, a preocupação era a ISO
9000.
Daí,
procuramos compreender quais eram as principais dificuldades encontradas na
adoção de modelos de gestão, que incluiu projeto de pesquisa envolvendo
instituições e empresas nacionais e internacionais. O resultado apontava para
fatores humanos, o que provocou a questão primordial: como resolver
problemas humanos trabalhando dentro de máquinas?
Uma
grande parte das descrições de empresas, inclusive organogramas que lembravam
circuitos elétricos, apareciam como "engrenagens engatadas".
Lembravam espremedores de laranja. Boa parcela das organizações ainda são
geridas desta maneira e, por sua vez, parte das escolas promovem a formação de
"laranjas"!
Na
busca de uma resposta, tivemos que desenvolver uma pesquisa transdisciplinar que
englobou as ciências humanas (antropologia, as diversas correntes da
psicologia...), naturais (física, química, biologia, ecologia, cosmologia...),
sociais (sociologia, política, economia...) e exatas (teorias do Caos, da
Complexidade, da Cibernética, dos Fractais...), bem como, a filosofia , as
artes e as tradições religiosas do oriente e do ocidente. Foi, e tem sido,
todo este período, uma conversa com a própria natureza!
Perguntávamos
para as suas diversas formas de expressão (pois neste momento somos a natureza
falando sobre ela mesma, embora a maioria das pessoas não tenham consciência
disso), O QUE É A VIDA?
Ficamos
boquiabertos ao nos depararmos com o surgimento em nossas consciências de
padrões que se repetiam, transfigurados em linguagens distintas a depender do
campo do conhecimento que estava sendo investigado. Mesmo sem estar fazendo
qualquer questionamento, ao estudarmos qualquer assunto, ou lendo ou assistindo
a um filme por lazer, ou simplesmente vivendo situações em contextos
diferentes, estes padrões iam se revelando. É como se utilizássemos uns
óculos especiais, com o qual pudéssemos enxergar forças
"invisíveis", que explicavam as causas dos conflitos entre nações,
organizações e indivíduos.
Este
enfoque organizacional tem sido estudado, publicado e aplicado pelas principais
instituições em gestão do País e apresentado em eventos nacionais e
internacionais. Quanto as aplicações, envolveram iniciativas diversas com
organizações públicas e privadas, de tamanho e setores variados, também com
o intuito de reforçar processos de gestão já em andamento.
Uma Reveladora
"Coincidência"
No início de tudo havia o Caos... Veio Deus e criou o Cosmos. Uma “infinita” imensidão, onde todo o nosso sistema solar eqüivale a um grão de areia, considerando-se todas as praias do planeta. Dentro deste grande organismo, encontramos a Terra, composta por minerais, vegetais e animais. Como nos consideramos o ápice dentre os últimos, nos organizamos em funções políticas, sociais e econômicas.
Penetrando na política, a dividimos em três poderes: o legislativo, o judiciário e o executivo.
Nascemos em famílias, células mater da sociedade, compostas pelos papéis de pai, mãe e filho. Logo somos inseridos em uma religião, que sempre terá um Pai, um Filho e um Espírito Santo com um Deus onipotente, onisciente e onipresente.
Vamos crescendo... Conhecendo nossas potencialidades, então somos educados em instituições que desempenham atividades de pesquisa, ensino e extensão.
Chegamos ao mercado de trabalho... Somos contratados para desempenhar funções ou estratégicas, ou táticas, ou operacionais.
Por que será que dividimos nosso corpo em cabeça, tronco e membros?! Será que é por que temos aspectos emocionais, racionais e físicos? Ou... corpo, mente e alma, como dizem as tradições?
Talvez a ciência da psiquiatria tenha a resposta desvendando nosso id, superego e ego.
“Mergulhando” nas intimidades da vida, chegamos até as nossas células, com seus núcleos, citoplasmas e membranas plasmáticas, onde a vanguarda da biologia compreende a vida como tendo um padrão autopoiético (que se cria e recria continuamente), processo (cognição) e estrutura (forma)... Esmiuçando um pouco mais, percebemos os átomos com seus núcleos, eletrosferas e ligações atômicas, compostos por "pedacinhos de energia", que possuem sua própria natureza e uma “aparição” ora como onda, ora como partícula.
É muito interessante observarmos pelas teorias do caos e da complexidade, que a natureza promove a diversidade, conectividade e novas organizações emergentes, na direção de um caos , não tão caótico assim, que contém atratores estranhos, periódicos e puntiformes. A cibernética nos propõe uma direção ou sentido, uma avaliação e uma correção de rota.
Creio que estes exemplos já estejam de “bom tamanho”, pois na realidade, com o objetivo de desvendarmos a natureza, eu e você passaríamos o restante das nossas vidas percebendo três dimensões em tudo e em todos que envolvem os nossos passado, presente e futuro...
Os
Padrões Dimensionais da Natureza
Considerando uma gama enorme de
"coincidências", foram "descobertos" o real
significado daquelas três dimensões, o que estavam por nos dizer...Observando
atentamente aos seus significados, nos deparamos com o Conceito
SER. Acessamos uma lei geral, presente na forma com que a natureza se
expressa e se desvenda para nós, daí a razão de compreendê-lo como uma
descoberta.
Este conceito identifica três dimensões interdependentes, fechadas em um ciclo autocriador, essencialmente presentes em qualquer sistema vivo: Sensibilização (querer, dever, orientar, especificar, caracterizar, perceber...); Educação (saber, refletir, julgar, ponderar, responder, avaliar, planejar...); e Realização (fazer, operar, concretizar, acontecer, atuar, acionar...). Ver figura 1.

Figura
1 – As Dimensões da Vida e suas formas de representação
A
natureza em seu caminhar evolutivo, conforme comentamos anteriormente, vai
promovendo a diversidade, a conectividade entre as diversidades, surgindo
então, novas estruturas de organização, novos organismos. Diferentes
partículas subatômicas se agregam para formar átomos, estes por sua vez
unem-se em moléculas, que formam macromoléculas, que dão origem às células
simples, daí às células complexas, tecidos , órgãos, sistemas, indivíduos,
comunidades e conglomerados de comunidades.
Não é nosso objetivo aqui, detalharmos este desenrolar, mas é muito interessante nos depararmos com a seguinte questão: como pode a vida surgir a não ser da vida?...
Encontramos
estas três dimensões desde o micro ao macrocosmos, onde organismos menores
vão compondo organismos maiores, de nível complexidade superior.
Um
organismo está sempre incluso em outro maior, seu meio ambiente, em processo de
co-evolução cuja direção nos é dada pela dimensão da Sensibilização. Na
teoria do Caos, tal dimensão seria conhecida como os já mencionados
"atratores caóticos". Em função da variação do fluxo de energia
em seu meio, um organismo se depara com um ponto crítico conhecido como
"ponto de bifurcação", quando o mesmo se adequa, fazendo com que
surjam as "propriedades emergentes", que caracterizam uma nova ordem.
Quando isto não ocorre, o mesmo sucumbe, se deteriora não conseguindo dar uma
resposta aos desafios impostos pelo seu ambiente.
Trata-se de um sistema fractal, ou holográfico, configurando o que denominamos “biograma”, o organograma da vida. Ver Figura 2.

Figura
2
– Organograma da Vida (Biograma)
O Pensamento Biológico nas Organizações (Bio-Sistema Organizacional)
Detalhando cada uma das dimensões para uma organização, o Conceito SER assume a configuração descrita na Figura 3.

Figura
3 – O Conceito SER nas Organizações
Dimensão da Sensibilização - estabelece os motivos para o convívio organizacional
- Visão: Obtida através de uma viagem ao futuro cujo veículo é a imaginação, permite a vivência do senso de missão da empresa, a sua razão de existir e servir a sociedade.
-
Valores:
São
os referenciais de conduta da organização e seus integrantes. Os valores
caracterizam as diferenças entre uma organização humanizada, animalizada ou
“coisificada”.
As estratégias que norteiam o caminhar da organização, encontram-se nesta dimensão.
Dimensão da Educação - desenvolve competências e sabedoria.
- Conhecimento sobre Pessoas: Para um trabalho mais consciente e com sentido de realização é necessário desenvolver com os membros da empresa o autoconhecimento quanto à expectativas, competências, características pessoais positivas e negativas, além do conhecimento das demais pessoas que convivem em seu meio.
- Conhecimento sobre Administração / Gerenciamento: A competência em articular esforços e recursos para se concretizar o ideal da organização é essencial para sua saúde física, mental e financeira.
- Conhecimento sobre Tecnologias: A elaboração e domínio da tecnologia utilizada é fundamental para disponibilizar produtos e serviços de alto padrão à sociedade, além da compreensão das relações de causa e efeito do processo produtivo quanto ao seu desempenho e conseqüências ambientais.
-
Conhecimento
sobre Holismo: O
termo vem do grego “holos”, que significa todo,
inteiro. Tal conhecimento é de suma importância para a percepção da
integralidade do mundo e dos seres, permitindo uma vida mais plena e
menos fragmentada.
Dimensão da Realização - promove a ação organizada.
- Símbolos: Estes, podendo ser cognitivos ou físicos, refletem a estrutura de poder e os valores praticados pela empresa, independentemente do que está declarado em suas políticas de conduta. A sua não observância provoca resistência nas organizações em processo de transformação cultural, evidenciando as incoerências entre o discurso e a ação.
- Organização / Estrutura: A estrutura organizacional da empresa é o esqueleto que sustenta uma grande rede de serviços, promovendo ofertas e demandas de competências e recursos para o seu “metabolismo”.
-
Sistemas:
Os
sistemas organizacionais são os diversos órgãos responsáveis por concretizar
a finalidade da empresa e permitir uma relação adequada com os agentes responsáveis pela
sua vitalidade, que são os seus meios ambiente interno e externo (sociedade,
governo, clientes, não clientes, inventores, centros de pesquisa, investidores,
atuais, futuros e ex- integrantes, parceiros, concorrentes e planeta).
Os principais sistemas são: desenvolvimento humano; marketing;
desenvolvimento de produto e serviços; produção; informação; meio ambiente;
financeiro; e desenvolvimento social.
De
maneira resumida, podemos considerar o tipo de pensamento característico dos
principais movimentos da Administração, nas décadas de 80 e 90, conforme a
Tabela A.
|
Movimento
da Administração |
Dimensão
Preferencial |
Pensamento
Associado
|
Qualidade
|
Realização |
Verticaliza
o detalhamento dos processos de setores específicos da organização.
Embora promovesse o intercâmbio de processos entre setores, o que vingou
foi o pensamento vertical. |
Reengenharia
|
Realização |
Desenvolve
o pensamento horizontal, procurando vencer as barreiras entre os
diferentes setores de uma mesma organização. |
|
Organizações de
Aprendizagem |
Educação |
Estabelece
o conceito de “pensamento sistêmico”, definindo arquétipos de
relações entre comportamentos conflitantes. |
|
Organizações
Visionárias |
Sensibilização
e Realização |
Inspirado
no I Ching (Livro das
Mutações, da cultura chinesa), propõe para as organizações atividades
de natureza yin (conservadoras)
e yang (expansionistas).
Trata-se de um “pensamento bidimensional”. |
|
Organizações
Conscientes |
Sensibilização,
Educação e Realização |
Conhece
os princípios da natureza e desenvolve o “pensamento biológico”
(tridimensional-interativo), a fim de harmonizar imaginação, sentimento,
conhecimento, sabedoria e comportamento ao meio organizacional. |
Tabela
A – Características
do Pensamento da Administração Moderna
Torna-se
evidente a evolução nas formas de pensamento, na busca de uma melhor
compreensão da natureza e sua influência nas organizações. Vamos conviver
com organizações mais maduras, mais conscientes de suas responsabilidades e
mais críticas com relação a utilização de novas tecnologias de processo e
de gestão. Poderíamos dizer que vamos vivenciar a moda das tecnologias de
administração à prova de modismos.
Tipos de Pessoas e Organizações, Quanto a Plenitude das Dimensões
Relacionando
o indivíduo às três dimensões do Conceito SER, encontramos a seguinte
classificação:
O Ser Apoiador (Falta da Sensibilização): Competente, porém, não tem meta na vida. E quando não temos meta de vida, com certeza estamos na meta de alguém! Não há problema algum em compartilharmos uma meta, deste que isto se dê de forma consciente, quando a assumimos como nossa também.
O
Ser Aleatório
(Falta da Educação): Caracteriza-se por querer fazer algo e tentar realizá-lo, porém,
sem saber como. É um processo de aprendizado por tentativa e erro.
O
Ser Sonhador
(Falta da Realização): Muito criativo com
relação à idéias, tem visões espetaculares, é intelectualmente bem
preparado, mas não realiza ou faz acontecer suas projeções.
O
Ser Dúbio
(Duplicidade de uma ou mais dimensões):
Apresenta duplicidade ou mais
desdobramentos nas dimensões, provocando paralisia ou lentidão do organismo.
É muito comum em processos de privatização e associação de empresas.
O
Ser Fragmentado
(Falta articulação entre as dimensões):
Tem uma imagem para si no
futuro, porém, adquire competências não
coerentes com seus objetivos e faz outra coisa completamente diferente. Podemos
ter alguns momentos assim em nossa vida (ex.: adolescência), o problema é
vivermos desta maneira.
O Ser Pleno: Possui um equilíbrio harmonioso entre as três dimensões. São mais raros na natureza enquanto indivíduos, porém o encontramos em um grupo, que atuando de forma uníssona, aproveita o potencial de todos os seus membros.
Querer, Saber, Fazer... e o Dever
e o Poder?
Bem,
comumente escutamos algumas frases feitas que assumimos como verdades, tais
como: “Querer é Poder” ou “Informação é Poder”. Observando a
realidade, diríamos que querer e saber são partes do poder.
Aparentemente, poder querer e poder saber também são verdades. Então, o que seria o poder de fato?...
Consciência!
Esta se obtém a partir do discernimento e da ação. Temos que desenvolver uma
percepção clara de mundo, das pessoas, de nós mesmos e da nossa missão. Daí
definimos uma estratégia de como se comunicar e agir dentro da realidade. Para
aferir se estamos no caminho certo é só verificar nossa colheita.
Se
não gostamos do que estamos colhendo, devemos verificar o que estamos
plantando! O problema pode estar na semente (a meta), no solo (o ambiente), no
tempo (a oportunidade) ou no agricultor (a vocação). Assim cultivamos a
consciência! Nesta caminhada vamos transformando o “querer” em senso de “dever”.
Funcionário? Empregado? Colaborador? Sócio?... O que ser? Eis a questão!
Vamos refletir um pouquinho sobre a denominação mais adequada para nós “mortais” e nossa relação com nossas organizações.
Por
que se investe tanto em motivação ? No fundo... no fundo, é para fazermos
algo que não faríamos naturalmente! Se fosse natural, simplesmente o faríamos
da melhor forma possível. E na realidade, este esforço também se perde com o
tempo, porque ninguém, de fato, motiva ninguém
a fazer algo de maneira prazerosa, que não esteja de acordo com a
natureza do indivíduo.
Todas estas preocupações das organizações são para criar nas pessoas um sentimento de pertencer a um empreendimento, pertencer a um organismo, que tem a finalidade de fazer algo grandioso, que um indivíduo não conseguiria fazer sozinho.
Posto
isso, com relação a denominação mais adequada aos componentes da
organização, convivemos com uma série de nomenclaturas que trazem por trás
de si, significados distintos, que procuram evidenciar níveis mais acurados de
relacionamentos. Podemos correlacionar o termo “funcionário” à idéia de
servidor público, o título de “empregado” à empresas mais autocráticas,
assim como, “colaboradores” e “sócios” com empresas mais
participativas. Mas, na realidade, o indivíduo que trabalha em uma
organização é literalmente a organização, desempenhando uma função que é
vital para ela.
Imagine agora a empresa em que
você trabalha, sem você e todos os seus colegas...Sobraram as instalações e
os recursos materiais utilizados por ela. Falta o que na empresa? A resposta
é...VIDA!
De
madrugada, em um edifício sede de uma grande empresa, todos os andares
encontram-se apagados. Vai amanhecendo o dia, sai o sol e já perto das oito
horas o movimento torna-se intenso, as pessoas começam a interagir, elevadores
“a mil” e os andares começam a se iluminar, a ganhar energia, a ganhar
vida. Telefones tocam, papéis são preenchidos, outros são rasgados e jogados
fora. Pessoas se encontram, trocam informações, percebem os fatos internos e
externos e decidem o que fazer. Outras vão fazendo o que já estava decido,
trazendo para o mundo concreto o que já existia no mundo das idéias, até que
de repente todos param!...
Os
telefones começam e continuam a tocar e ninguém atende. Na portaria da empresa
surge uma fila de pessoas querendo entrar, são parceiros, clientes,
fornecedores e outros que convivem com a organização, mas não conseguem
entrar, não há quem os atenda. Sistemas de rede ficam piscando na frente das
pessoas pedindo “input” que ninguém fornece.... Lá dentro, todos
paralisados, parecem estátuas, com olhares determinados na intenção de fazer
algo que de forma surpreendente tornaram-se impedidos.
Onde
está a empresa?! Nos corações e mentes das pessoas. Neste momento ela existe
em potencial. Todos sabem quais interações promover, porém não as realizam.
Agora,
tão misteriosamente quanto a paralisação, sem perceber o que ocorrera, as
pessoas recomeçam seus afazeres. Retornando a agir e interagir, eis a vida que
ressurge, com toda a sua magnitude e mistério, deixando fluir a energia em suas
formas variadas.
Então,
já podemos voltar a questão básica de como denominarmos as pessoas que
compõem a organização. Bem, pelo exposto na realidade somos “portadores”
de organizações. A palavra “portador” significa: que leva ou traz consigo
ou em si. Portamos muitas “coisas”, boas e ruins. Toda nossa história, todo
o mundo que conhecemos está à reboque em nós, não importa onde estejamos. É
muito comum estarmos em nossas casas,
conversando com nossas esposas, e de repente vem a pergunta: você não
está me escutando, onde é que você está?... Muitas vezes estávamos na
empresa mesmo!
Quando
estudamos organizações e instituições que transcendem séculos, o que é
passado de uma geração à outra? O que é um país? O que é uma religião? O
que é uma sogra?... É uma idéia que tem vida própria! Assim como passamos
informações genéticas às próximas gerações, passamos também idéias
vivas, com sua natureza específica, referencial de valores e comportamentos
associados. São verdadeiras “entidades” que portamos.
O Organismo e o Seu Ambiente Externo
Nenhum organismo evolui independentemente de seu ambiente, o próprio processo civilizatório é resultado de uma “conversa” entre as sociedades e seus ambientes. Os ambientes colocam os desafios, provocando as respostas das sociedades, visando a perpetuação das suas espécies e culturas.
Com
relação à uma organização e seu meio, encontramos forças ativas padrões, meta
inteligências arquetípicas que representam expressões da natureza (“entidades”),
que convivem em qualquer organismo, incluindo o homem e suas nações. Ver
Tabela B.
|
Entidade
Arquetípica |
Fluxo
Energético |
Estrutura
de Nações |
Atores
Organizacionais Envolvidos |
|
Rei |
Identidade |
Império |
Senso de missão disseminado em seus portadores |
|
Herói |
Potestade |
Ditadura |
Conselhos,
lideranças e assessorias |
|
Religioso |
Integridade |
Fundamentalismo |
Sociedade,
governo, portadores e planeta |
|
Inventor |
Inventividade |
Anarquismo |
Inventores,
portadores e centros de excelência |
|
Artesão |
Produtividade |
Comunismo |
Fornecedores,
portadores, clientes e não clientes |
|
Mestre |
Potencialidade |
Socialismo |
Ex-portadores,
portadores e futuros portadores |
|
Empreendedor |
Viabilidade |
Neoliberalismo |
Acionistas,
portadores e concorrentes |
Tabela
B – Arquétipos
Organizacionais
Torna-se
fundamental para a longevidade do organismo, uma clara percepção das demandas
do meio com o qual interage, o desenvolvimento do comportamento adequado às
exigências deste meio e as “provocações” que o próprio organismo queira
fazer nele. É bom relembrar, que o próprio meio também é um organismo que
encontra-se em evolução.
Os
principais conflitos que ocorrem, sejam na vida de um indivíduo de
organizações ou de países, se dão entre os interesses distintos que
caracterizam cada uma daquelas entidades. São processos subjacentes, que não
ficam evidentes nas mesas de reuniões, nem em nossos conscientes se não
tivermos um “olhar” já treinado para percebe-los. Podemos citar como
exemplo, uma vez que não é objeto deste texto explorarmos todo o assunto, uma
discussão sobre investir ou não em desenvolvimento humano; pelo olhar do
religioso, não há nem necessidade de se discutir esta questão. Já pelo olhar
do empreendedor, ele vai perguntar, de formas variadas: quanto é que nos vamos
ganhar com isso?! Um indivíduo ao decidir passear com a família ou fechar um
negócio, terá seu comportamento resultante, influenciado pelos mesmos
arquétipos já mencionados.
Uma
sociedade regida pelo arquétipo do guerreiro,
torna-se uma ditadura. Regida pelo empreendedor, temos uma sociedade
neoliberal. Este é o conflito entre Cuba e E.U.A..
A
Liderança nas Organizações
Talvez, uma das principais dificuldades de pessoas não perceberem vida nas organizações, seja a falta da percepção da vida nelas mesmas.
Ao investigarmos as razões dessa realidade, observamos que tradicionalmente os gerentes vieram sendo desenvolvidos sob duas orientações (tarefa e pessoas), definindo-se assim o seu estilo de liderar, conforme representação da Figura 4.

Figura 4
- Estilos de Liderança
Se o líder estava mais voltado
para pessoas era tido como democrático. Seria considerado autocrático, caso
desse mais importância as tarefas. O movimento da liderança situacional
propôs a ação em função do momento. A depender deste, o gerente deveria ser
mais autocrático ou mais democrático.
Pois
é, mais pernicioso que a ignorância, é a ignorância eficaz!
Acreditamos
que as organizações são o principal meio que as pessoas dispõem para evoluir
e se expressar, pois boa parte da nossa vida está no ambiente de trabalho.
Se observarmos como despendemos nosso tempo, vamos verificar que sobram apenas quatro horas por dia para realizarmos tudo que queremos na vida, a não ser trabalhar, dormir e cumprir com nossas demandas fisiológicas... E a família? E o lazer?... Pronto, lá se foi o resto da vida! Ah!... mas quando eu me aposentar....
Está
bem, não vamos entrar nesta discussão. O importante é concebermos o nosso
trabalho como a nossa expressão, o marco da nossa existência, o dever de
servirmos a sociedade através do nosso talento. Os antigos o consideravam como
“sacro-ofício” (trabalho sagrado) ao invés do atual enfoque de “sacrifício”.
Ter
consciência de algo que sabemos fazer bem e exercê-lo é o principal
patrimônio de um indivíduo. Para termos este nível de consciência, não
bastam os dois eixos considerados nas teorias de liderança (tarefa e pessoas),
pois, no máximo, eles possibilitam apenas o desenvolvimento do ser apoiador.
Com
a pressão do mercado competitivo e a diminuição dos níveis das estruturas
organizacionais, não há muitas alternativas para promoções, o que determina
que as fontes de motivação no trabalho deverão ser cada vez mais intrínsecas
(auto-motivação) do que extrínsecas (dependendo de fatores externos a
pessoa).
Já
começamos a perceber uma série de iniciativas das organizações em promover a
busca do autoconhecimento e de uma melhor compreensão da realidade de seus
integrantes, desde a introdução de técnicas de psicologia ao estudo da
espiritualidade humana.
A
principal dificuldade da introdução desses conhecimentos é que exige
imaginação, meditação, reflexão e autodisciplina. Porém, a grande maioria
das pessoas não teve formação adequada para o exercício do discernimento e
controle das suas ações. Os nossos sistemas de vida e educacional estão mais
para deformar do que para formar seres plenos. Contudo, podemos conceber a
tendência de uma “nova” teoria de liderança, representada pela Figura 5,
que denominamos como o Perfil de Maturidade
Pessoal.
Há
uma relação direta entre esta abordagem de perfil de liderança e a dimensão
da Educação proposta pelo Conceito SER, no enfoque de "Organizações
Conscientes". Uma liderança melhor desenvolvida nestas quatro
orientações (conhecimento de mundo, conhecimento de si mesmo, conhecimento da
tarefa, conhecimento das pessoas) seria a mais adequada para alavancar o
processo consciencial nas organizações.
Chegamos a esta conclusão em meados da década de 90 e tivemos que criar uma universidade alternativa para trabalhar os seguintes temas:
A natureza, o homem e suas formas de expressão
As
forças sociais, políticas, econômicas e suas tendências
Autoconhecimento
e domínio dos pensamentos e das emoções
Saúde
física e mental
Estratégias
para a realização pessoal e profissional
Os
fatores que afetam a vida das organizações
As mais recentes tecnologias da administração
A
criação e o desenvolvimento de negócios
Ciência,
tecnologia e comportamento
Biografias
de sucesso
A
UNESCO, em 1997, refletindo sobre o conteúdo educacional para a formação de
um cidadão para o século XXI, chegou a uma conclusão bastante similar aos 4
eixos, chamando-os de "Colunas".

Figura
5
- Perfil de Maturidade
Considerações
Finais
Sempre foi muito comum escutarmos em empresas declarações como as seguintes: “O homem é o nosso principal patrimônio!”; “Nossos recursos
humanos são a nossa maior preocupação!”; “Para nós as pessoas são o
mais importante, somos uma grande família!”.
Apesar destas manifestações, as nossas vivências e observações evidenciam, de forma bastante comum, uma certa ignorância quanto à questão: o que é ser humano? As respostas que encontramos são bastante variadas mas, como são fornecidas por representantes da espécie, acreditamos que tenham uma parcela da verdade.
De
qualquer forma, é fácil verificar a falta de habilidade que muitas empresas
encontram ao lidar com o seu “principal patrimônio”. Basta atentarmos para
as causas das dificuldades na implantação de programas gerenciais. A grande
maioria dos problemas verificados estão relacionados com fatores humanos. Como
resolver problemas humanos trabalhando dentro de máquinas? Esta é a questão fundamental colocada pelo Conceito SER.
Espero que a divulgação deste trabalho possa contribuir com as empresas em processo de transformação cultural, na medida em que propõe uma reflexão sobre:
- A natureza humana e seu papel no planeta.
- A percepção de que para sobreviver e ou crescer não basta satisfazer clientes e portadores, pois há empresas fechando com estas condições atendidas. Torna-se fundamental, então, priorizar suas ações para o atendimento das relações mais críticas, considerando-se todos os agentes envolvidos com a vitalidade da organização.
-
A necessidade de um posicionamento
crítico com relação as diversas correntes de pensamento, que são criadas
pela sociedade e o meio científico, que influenciam comportamentos e a
utilização de tecnologias de produção e gerenciais. Desta maneira,
procura-se instituir um processo decisório lúcido, orientado para a realidade
da organização.
- A importância da elaboração de um planejamento articulado e coerente das diversas iniciativas que promovem o ciclo fechado e autocriador, que une as dimensões de sensibilização, educação e realização, abrangendo as mesmas, os "olhares" de todos os arquétipos.
-
Aprender a lidar com algumas regras da vida, como por exemplo: um organismo não
dá um passo à diante sem consultar a sua história; esforços e resultados,
não estão intrincados dentro de uma matemática linear, ou seja, um pequeno
esforço pode gerar grandes resultados ou vice e versa; na vida a certeza não
é garantida, podemos garantir apenas o que plantamos, a colheita, é uma outra
história a ser contada; qualquer organismo está sempre inserido em outro maior
dentro de um processo de co-evolução
e, sua inteligência, monitora a sua
adequação entre caos e ordem, e o surgimento das "propriedades
emergentes".
Finalmente,
atuando em cada um destes itens, estaremos criando Organizações
Conscientes, mais imaginativas, mais críticas, mais solidárias e
realistas, enfim, mais sábias.
Em
diversos exercícios que realizamos junto à executivos de empresas e estudantes
universitários, no intuito de compreendermos qual a percepção
da era que estamos vivenciando, encontramos como respostas uma longa
lista de enfoques alternativos tais como: informação; conhecimento; mulher;
fundamentalismo; informática; intuição; capital humano; aquário;
globalização; caos ... É claro que a percepção depende dos autores destes
títulos e seus objetivos, mas aparentemente, a impressão é a de estarmos
vivendo a “era das eras”.
Particularmente
temos uma preferência: ERA DA CONSCIÊNCIA! Um mundo mais justo, com empresas
produzindo produtos e serviços que realmente agreguem a humanidade, respeitando
o grandioso organismo que nos recria constantemente: A TERRA!
Pense
nisto, pois como cada cabeça é um mundo, podemos escolher em qual viver.
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Nota:
Este
pensamento, ao longo da década de 90, tem sido utilizado em projetos de
diagnóstico organizacional, desenvolvimento organizacional e aperfeiçoamento e
integração de tecnologias de administração utilizadas pelas organizações
(Qualidade Total, Normas Gerenciais ISO,
Organizações de Aprendizagem, SA8000, Reengenharia, Planejamento Estratégico,
Gestão de Projetos, Sistemas de Informações Gerenciais....). Vem sendo
estudado, aplicado ou publicado pelas principais instituições de gestão do
País e influenciando programas nacionais e internacionais de excelência.
Dentre
as organizações onde o Conceito foi e vem sendo aplicado em projetos
específicos, encontram-se empresas e instituições de setores distintos
(siderurgia, telecomunicações, energia, ensino, consultoria, indústria
automobilística). Ele também está sendo utilizado como referência conceitual
no desenvolvimento metodológico para a avaliação das empresas de
distribuição de energia elétrica do país.
Estas aplicações, tem sido apresentadas em eventos nacionais e internacionais. O artigo original é de 1994 e foi revisado em 1999 e 2001.
Para o desenvolvimento deste modelo foi utilizada uma vasta bibliografia, caso o leitor tenha interesse em conhecer ou mesmo trocar informações sobre o artigo, nos colocamos à disposição através do e-mail rsoares@institutoorior.com.br